Do senso-comum à Filosofia

filosofia_sensocomum2Nos mais simples diálogos de nosso dia a dia é inevitável que apareçam inúmeras opiniões sobre os mais variados assuntos. Na maioria das vezes estas conversas são recheadas de “conhecimentos” vagos, superficiais e até mesmo ingênuos a respeito dos temas abordados. Expressões do tipo “homem que é homem não chora”, ou “o brasileiro é um povo pacífico”, entre inúmeros outros, refletem um tipo de conhecimento pouco profundo, na maioria dos casos adquiridos ocasionalmento no cotidiano, sem uma busca séria e reflexiva. Podemos dizer que este “tipo” de conhecimento, que chamaremos de senso comum, possui algumas características semelhantes:

a. são imprecisos – conceitos vagos, sem rigor;

b. são incoerentes – associação de conceitos contraditórios, que se anulam em termos lógicos;

c. são fragmentados – conceitos soltos, que não abragem, de modo amplo e sistemático, o objeto estudado.

A Filosofia perante o senso comum é muitas vezes considerada como algo confuso, sem sentido, difícil e, sobretudo, sem “finalidade”. Afinal de contas, vivemos hoje a era dos “fast food”, não temos tempo para comer, por que teríamos tempo para pensar? Uma disciplina que não oferece respostas rápidas aos imbrólios do dia-a-dia de fato não deve servir para muita coisa, não é acha!?

Mas é estranho constatar que em nosso cotidiano, consciente ou inconscientemente, projetamos atitudes críticas pelos mais variados motivos. Afinal, é do interesse de todos que as leis sejam justas, por exemplo. A maioria de nós pensa sobre o certo e o errado e como deveríamos agir em determinadas situações e somos capazes até mesmo de suspeitar sobre a validade de uma prescrição médica, por exemplo. De um modo geral, estes exemplos evidenciam talvez a mais marcante característica da Filosofia: o espírito crítico. É claro que não estou afirmando que o exercício da postura crítca seja, por si só, represente a filosofia em toda sua plenitude. É preciso entender que a Filosofia tem uma maneira de ser, um conjunto de prescrições que validam sua aplicação e uso correto. Mas este esforço merece atenção, a atitude crítica é humana por natureza. O animal não pergunta por que, mas até o mais ignorante dos homens questiona as coisas a sua volta. É justo afirmar, então, que perguntar “o que é?”, “como é?” e “por que é?” talvez seja o exercício mais fundamental da Filosofia. Este tipo de comportamento crítico (crítica provém do grego crinein, que significa separar, julgar) é, sem dúvida, a origem de todo pensamento filosófico.

Desde o rompimento com o pensamento mitológico (ou racionalização destes, como sugerem alguns) até as densas análises “heidegarianas” sobre o ser, a história da filosofia sempre esteve atrelada ao comportamento crítico, seja investigando o surgimento do mundo (arcké) ou a “clareira” do ser. Neste longo percurso a Filosofia sempre se viu combatida e reduzida em suas propriedades. A verdade é que a filosofia tem incomodado a muitos e a história registra inúmeras tentativas de destruí-la, desqualificá-la e negá-la. Aos governantes e líderes, em geral, mais vale um comportamento de rebanho, de fácil manipulação a um comportamento verdadeiramente crítico e sistemático sobre a realidade e não foram poucos os filósofos que pagaram com a vida ou perda de liberdade a ousada postura de filosofar sobre seu tempo.

Assim, acredito que seja importante compreender que a Filosofia sempre esteve condicionada a determinados contextos históricos que determinam sua própria identidade. Defini-la seria limitá-la a compreensão de uma determinada escola, filósofo ou teoria. Contudo em todos os seus momentos a Filosofia sempre manteve um lastro crítico, e até mesmo auto-crítico, lançando indagações e questionamentos que inspiram e incitam respostas comprometidas com seu mundo e contexto histórico. Deste modo, como bem sugeriu Nunes (1992), a máxima de Sócrates – “a vida não examinada não merece ser vivida” – tem permanecido como horizonte e estímulo a reflexão filosófica. Hoje o filósofo é um homem raro, com forte estereótipo social (”pequisador de coisas descabíveis” ou “alguém fora da realidade”).

Não podemos esquecer que estas caracterizações atendem a interesses bem definidos…

“Todos os homens são filósofos, enquanto pensam [...] enquanto refletem sobre a cultura, a linguagem e o mundo que recebem ao nascer [...] assumindo-o não de maneira pronta e passiva, mas de maneira crítica e responsável.” (A. Gramsci)

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